Ciladas da língua (VIII): Por que, Porque, Por quê, Porquê

4 nov

Esta cilada é tão conhecida que não deveria nem mais causar dúvida, porém frequentemente ainda encontramos certa confusão quanto ao uso de por que, porque, por quê e porquê.
Se você aprendeu que por que (em duas palavras) ocorre em perguntas, enquanto porque (em uma palavra) ocorre em respostas, esqueça essa simplificação e observe o quadro abaixo:

 

 

Por que não é apenas usado quando iniciar uma pergunta, mas também com o sentido de “por qual razão” e “pelo qual”.

Por que você não quis falar com ele?

As dificuldades por que [pelas quais] ela passou foram terríveis.

Hoje sabemos melhor por que [por qual razão] eles deixaram o país.

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Porque ocorre para explicar, justificar ou fundamentar algo.

Ele chegou atrasado porque perdeu o ônibus.

Beba bastante água todos os dias, porque faz bem à saúde.

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Por quê também guarda o sentido de “por qual razão”, entretanto só deve ser usado no fim da oração.

Por quê?

Você vai falar com ele por quê?

Ninguém sabe por quê.

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Porquê é um substantivo que significa “motivo”, “causa”, “razão”. Sempre vem precedido do artigo “o”.

O porquê [o motivo] desse escândalo eu ainda não entendi.

Ela não me disse o porquê [a causa] de sua decisão.

Livromania: As meninas leitoras de Beerhorst

25 out

Quem nunca leu um livro tão envolvente, que faz mergulhar na história e esquecer o mundo ao redor, não sabe o que está perdendo!

Essa é uma das grandes delícias da literatura: deixar-se levar à outra dimensão, acreditar em dragões, sorrir e chorar com o destino das personagens…

A série de pinturas do artista plástico norte-americano Rick Beerhorst representa bem essa sensação. De tão compenetradas que estão em seus livros, a visão das meninas leitoras é bloqueada para o mundo exterior, transformando-se em tranças e pássaros… Uma bela metáfora para quem não consegue tirar os olhos de um livro!

 

Ciladas da língua (VII): Dentre vs. Entre

19 out

A diferença de dentre e entre é sutil, porém deve ser observada. Veja o quadro abaixo.

 

 

Dentre, contração de de e entre, deve ser usado apenas quando a palavra anterior exigir a preposição de, tendo o sentido de “do meio de”.

entre é utilizado nos demais casos, significando “no meio de” e indicando relações de tempo, espaço e entre pessoas.

Está na hora da [de a] onça beber água…

28 set

No português, a língua falada se difere da língua escrita em muitos aspectos. Enquanto na fala juntamos e cortamos palavras sem problema, mesmo em meios cultos, devemos observar o que é viável ou não na escrita.

 

Como exemplo, tome a seguinte expressão popular:

Está na hora da onça beber água.

De acordo com a gramática normativa, não existe sujeito preposicionado, assim o correto seria: Está na hora de a onça beber água. O novo Acordo Ortográfico mantém essa regra:

Quando a preposição de se combina com as formas articulares ou pronominais o, a, os, as, ou com quaisquer pronomes ou advérbios começados por vogal, mas acontece estarem essas palavras integradas em construções de infinitivo, não se emprega o apóstrofo, nem se funde a preposição com a forma imediata, escrevendo-se estas duas separadamente: a fim de ele compreender; apesar de o não ter visto; em virtude de os nossos pais serem bondosos; o facto de o conhecer; por causa de aqui estares. (Base XVIII, 2º, b, Obs.)

Contudo, cabe observar que a expressão citada é considerada uma frase feita, isto é, está “congelada” na língua, sendo assim a fusão admitida por muitos gramáticos. Para os demais casos, deve-se seguir a gramática normativa e rejeitar construções do tipo.

Muitas vezes, isso ocorre com: apesar de, antes de, depois de, o fato de, a possibilidade de, por causa de, a fim de e o direito de.

Exemplos:

Apesar das de as medidas serem poucos eficientes, ele as manteve.

Antes dela de ela sair da cidade, foi visitar a tia.

O fato dos de os meninos não estarem aqui não me diz respeito.

Revisão em PDF sem drama!

20 set

E quando você pensava que dominar as ferramentas do Word seria o suficiente, eis que aparece um monte de clientes pedindo revisões em PDF!

No mundo ideal, todos teriam o Acrobat X Pro, que é o software para edição de textos em PDF. É possível baixar o X Pro para um teste de 30 dias. Sendo ultrapassado esse período, não funciona mais, tem de comprar… Gastar algumas centenas de reais no X Pro faz sentido para quem tem um volume muito grande de revisões em PDF, do contrário, o investimento pode pesar — e muito — no bolso. Além disso, há outra maneira de revisar em PDF com o Acrobat Reader X, que pode ser baixado gratuitamente, usando as ferramentas de comentário.

Antes de mostrar as ferramentas, é importante ressaltar que a revisão em PDF deve existir apenas como uma última revisão, aquela última olhada a fim de garantir que nada escapou mesmo. Ou seja, o texto já está diagramado, esperando ser liberado para a gráfica; já passou por, pelo menos, uma boa preparação em Word. Por isso, só deve ser alterado o que realmente estiver errado. Também é importante observar paginação, quebra de palavras, cabeço etc. Pela minha experiência, revisões em PDF são sempre de textos curtos — trabalhar em PDF pode ser cansativo e lento, assim, não convém revisar textos extensos dessa forma.

Como disse, você pode fazer sua revisão usando as ferramentas de comentário do Acrobat Reader X. São duas ferramentas: Sticky Note e Highlight Text. O Sticky Note é o balão de comentário e o Highlight Text serve para realçar o texto.

 

Eu gosto de usar o Sticky Note apenas para comentários, dúvidas, observações… Para correção, realço o texto e abro o Pop-Up Note ao clicar em cima da palavra realçada com o botão direito mouse. Penso que assim fica mais claro o que é correção e o que é observação.

 

 

A cor do realce é o amarelo, porém é possível mudar. Para isso, clique em cima do texto realçado e, então, abra a caixa Properties. Lá você poderá escolher outras cores.

 

Para exclusões, costumo realçar a palavra em vermelho, assim fica fácil identificar o que precisa ser feito. Dependendo do trabalho, vale a pena estabelecer certas cores para certas ocorrências (exclusões, quebras erradas, notas fora de ordem etc.), comunicando, é claro, a seu cliente qual é o significado de cada cor.

 

 

Enquanto no Word é possível corrigir apenas a letrinha que está errada (p.e.: idéeia, heróoico), no PDF é melhor selecionar a palavra inteira e reescrevê-la. O mesmo serve para a pontuação: em vez de escrever um texto pedindo para colocar um vírgula depois da palavra X, reescreva a palavra e ponha a vírgula. Os diagramadores agradecem.

Nesse mesmo sentido, se algo precisa estar em negrito, itálico, subescrito etc., reescreva a palavra no pop-up e a selecione. Então, clique nela com o botão direito do mouse, vá até Text Style e escolha o estilo certo.

Em  minha experiência, isso funciona bem e, apesar de ser chatinho, consigo pegar jobs — pequenos — no PDF fazendo assim. Cliente feliz, frila feliz! :-)

Espero que essa pequena explicação seja útil e, por favor, deixem suas dúvidas nos comentários!

Até mais!

Ciladas da língua (VI): Em princípio vs. A princípio

20 set

As ciladas da língua estão de volta com duas locuções adverbias bem parecidas: em princípio e a princípio. Confira o quadro abaixo:

 

 

Em princípio, segundo o Guia de uso do português (Moura Neves, 2012, p. 284), é uma expressão delimitadora, podendo significar também “como ponto de partida”.

A princípio tem valor temporal, assim, a expressão pode ser substituída por “no início”, “no começo”, “incialmente”.

Irmão dessas expressões, mas menos mal-empregado, está por princípio, significando “por preceito”, “por convicção”. Exemplo: Não votarei nesse candidato por princípio.

Letra na Cidade: Weimar

9 set

Alemanha: nós não pensamos, nós googlamos!

Ainda bem que lá no cantinho está escrito wir nicht (“nós não”), do contrário Goethe e Schiller, cujas casas não estão muito distantes dali, estariam a revirar no caixão…

Indicando o ato de procurar informação na internet pelo site de pesquisa Google.com, ou simplesmente como sinônimo de “buscar”, google’n está na boca do povo na Alemanha, enquanto na língua inglesa, to google já é indiscutivelmente um verbo. E no português, como fica?

A portuguesa Porto Editora já incluiu “googlar” em seu Grande Dicionário da Língua Portuguesa, ao lado de “twittar”, aliás. Apesar de “blogar”,  por exemplo, figurar em dicionários brasileiros, “googlar” ainda não foi registrado por aqui (até onde sei, quem tiver outra informação, por favor, compartilhe!). No entanto, muita gente já está falando “eu googlei”, “googla isso aí”…

Se um autor ou tradutor tem a audácia de “googlar” no texto, como você faz, revisor(a)?

 

a) Altera imediatamente para “fazer uma pesquisa no Google” e afins.

b) Põe em itálico ou entre aspas para destacar o neologismo.

c) Sugere uma nota de rodapé explicativa do significado de “googlar”, em respeito aos desavisados do mundo.

d) Aceita a vida como ela é (ou a língua, em constante transformação) e deixa “googlar” em redondo, sem destaques nem notas.

e) Pergunta para a editora — ela que decida.

 

Não estou certa de que exista uma só resposta para essa questão. Todas podem ser adequadas, de acordo com o tipo de texto, o público-alvo, a editora e, é claro, o gosto/as convicções do revisor…

Em um romance descolado (principalmente se traduzido do inglês), com um público-alvo jovem, vale a pena pensar bem antes de destacar qualquer estrangeirismo… E nota explicativa para “googlar”? Duh! Mas em um folheto de uma escola de informática que anuncia um curso de internet para idosos, “aprenda a fazer pesquisas no Google” será mais intelígivel do que “aprenda a googlar”.

Assiml, observar o público-alvo do texto e o estilo da editora pode ser tão importante quanto respeitar a norma culta, e deve contar em nossas decisões.

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